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Hora do almoço

por esquisita, em 23.07.21

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Se pudesse ser um pássaro, era um barquinho azul.

E se os barcos não puderem ser pássaros...

Se ser humano não pode, então,  não paga a pena ser!

Não me façam perguntas difíceis, que estou na hora do almoço!

E se os barcos não puderem ser pássaros, é melhor ser ou poder?...

 

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Fruto Raro

por esquisita, em 21.07.21

foto2+.JPGMal nos conhecíamos e já ela se ria do meu espanto.

Gargalhada sumarenta, que nada faz para se conter ao procurar sentir-me o gosto na provocação:

"Que sabes tu destes montes nesse tempo? Se a terra não as dava era luxo, sim senhora!"

Eu, nem sempre doce, não me deixo amargar pelo ouro da discórdia. Aceito o desafio nos frutos raros e reconheço o acerto nas escolhas.

É por isso que agora, nos podemos reunir no desfastio, gozando o sabor do mais honroso prémio, em dia de corridas, da mais carinhosa prenda, em noite de Natal:

A Laranja!

 

 

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Dia de raiva

por esquisita, em 14.07.21

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Há coisas que não se dizem e muito menos se podem escrever

 

Onde quer que ela esteja…

Onde quer que ela esteja…

Não me repitam: onde quer que ela esteja…

Eu sei onde ela está! Também lá estavam, também viram a terra na minha mão,

Como fui capaz?

Não me digam que foi cedo demais! Não existe tempo justo!

Não me falem de estrelas mais brilhantes, 

Já lá estavam ontem, são as mesmas, brilham indiferentes!

Não me convençam a guardar a vida na memória,

Já vi a vida dispensar a memória, no mais cruel existir sem ser.

Não me confortem o sofrimento com o sofrimento que conhecem...

Quero a dor, é minha! Não quero que nada nem ninguém a diminua!

 

Mas porque não me avisaram do desejo de escavar, de desenterrar, de desfazer o que está feito?

 

Porque não me explicaram a fúria de rasgar o céu e explodir constelações? 

 

Porque não me disseram da raiva de ter ficado para trás, num abandono injusto?

 

Sempre soube que a ousadia seria esmagada pela impotência, ainda assim, ousei. Não ouvi...

Agora ouço, claramente:

Nada podes!

 

Disse e escrevi

 

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A ti, que compreendes e perdoas

por esquisita, em 01.07.21

Recusei a dedicatória. Na verdade, quase implorei para que não o fizesse.

Sugeri, quando muito, uma menção breve nos agradecimentos.

Protestou, mas acabou por ceder ao meu pedido.

Sabe que eu troco essa honra pela ilusão de exercer a minha influência por mais uns tempos.

Eu sei que compreende e perdoa. 

Fico feliz.

Não tenho esse direito, e estou longe da perfeição, para além do mais…

sou esquisita.

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" Aqui, muito melhor!"

por esquisita, em 25.06.21

 

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Fez questão de me mostrar o seu quarto. No outro, os meninos ainda estão a dormir.

Não foi por não falarmos a mesma língua que não nos conseguimos entender, mas é difícil dar sentido à frase:

"Aqui, muito melhor!"

 

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Aprender a perder

por esquisita, em 08.06.21

Levantei-me, deixando a mala pousada no banco. Pouco depois alguém se sentava atrás de mim. Tinha-o visto, na entrada, com a mão estendida e o olhar baixo. Provavelmente era ele que se acomodava, no banco traseiro, evitando fazer barulho.

"E se ele não fosse tão humilde e inofensivo como parece?" O rótulo pode ser erro e a desconfiança injusta.  É sempre mais fácil deixar que a dúvida empurre para a deriva das suposições.

"E se me levar a mala?" Na origem estava o preconceito mas era o caminho sem rumo que me atraía, e avancei.

"Não olhes para trás, não olhes para trás!" Comecei por calcular o transtorno que me causaria ficar sem a mala e o valor que dava ao que estava dentro dela. Não podia negar que a possibilidade me aborrecia, mas na verdade, com maior ou menor dificuldade, seria possível repor ou readquirir aquilo que me levasse. Seria um contratempo, sem dúvida, mas que podia ser ultrapassado.

"Talvez o faça por necessidade..."  A hipótese dava-me o conforto da justificação. É sempre mais fácil perder, conhecendo o motivo, valorizando a causa na medida inversa em que se desvaloriza o efeito.

 "Pois que a leve, melhor se lhe fizer proveito!"  E na satisfação de me julgar capaz de tal desprendimento, resolvi ir mais longe.

Seria possível prescindir daquilo que era meu sem sentir raiva e revolta?" 

"Não olhes para trás, não olhes para trás!" Agora a questão era mais complicada, porque sabia que da emoção dificilmente conseguiria escapar, no entanto  os sentimentos também se podem construir na razão e na vontade. 

"Talvez seja possível alcançar esse equilíbrio"  A hipótese trazia-me a segurança do controlo. É sempre mais fácil perder mantendo algum domínio, pelo menos a ilusão.

"Então, que a leve, melhor que seja eu a determinar o estrago!" Queria muito acreditar que era capaz de atingir esse equilíbrio, mas também queria uma resposta honesta e…

"Basta!" A situação é solene, requer modos corretos, pensamentos elevados e sentimentos puros. Tentando acertar a rota, apercebi-me do paralelo improvável.

"Não te atrevas a comparar!" Mas já não podia recuar, o paralelo estava estabelecido.

Por meio nenhum é possível desvalorizar. Nem a vontade, nem o esforço nem mesmo o sacrifício podem recuperar ou substituir.

Estava a aprender a perder, num percurso bem mais duro, onde o atalho fácil não existe.

Voltei a sentar-me, a mala continuava pousada no banco. "É só uma mala!"

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A f a s t a r

por esquisita, em 01.06.21

 

Eu a descer a ponte e                                                                                                           eles ao fundo da rua,

eu a vê-los na conversa                                                                                               e eles sem saber de mim

                         Eu para lá e,                        no mesmo caminho,                           eles para cá   

                                                                       Acabámos por nos cruzar na surpresa 

Eles no novo impulso de se arredar. e                                      eu, no velho recreio da escola

eles em conformidade com os tempos                                           e eu, criança, com vontade de gritar:

                                                                                                                                           "NÃO TENHO A PESTE!"

 Ainda bem que não abri a boca

 Eles não iriam perceber                                                                                               Eu, não saberia  explicar,

                                                                                                                                          mas tomei como ofensa

 

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O que fica

por esquisita, em 10.05.21

Não tenho por hábito tomar notas dos livros que leio. O que fica da leitura é, inicialmente, uma ideia clara e intensa que, com o tempo, se vai tornando mais difusa e muitas vezes acaba mesmo por se afastar da referência que lhe deu origem. É um processo que não controlo mas que reconheço como sendo um dos motivos pelo qual me agrada tanto ler.

Não sei bem como se formou, só sei que não está perdido. A verdade é que, com frequência, me surpreendo com o que fica registado na memória.

Guardei este como um recado, uma espécie de receita para uma experiência que gostaria de viver no futuro. Tem um caráter prático e serve para descobrir o que está por baixo da tinta. Passados cerca de trinta anos, vem de uma época em que a tinta nunca me tinha passado pela cabeça mas em que já começava a aceitar que todas as coisas têm o seu tempo. O tempo para a usar haveria de chegar. É assim:

Despejar o líquido pelo ralo da pia abaixo, fazendo desaparecer a tinta*.  Não é altura para buscar motivos que justiquem os resultados

Espreitar, pelo canto do olho, entre a inveja e a irritação, para cabeças que já lá chegaram. No branco e no vento, procurar o tom da tranquilidade

Fazer conviver a dúvida e a determinação, a urgência da revelação e a esperança que nada tenha mudado

Passar pela angústia de deixar a descoberto aquilo que há muito está à vista de todos e acabar por descobrir a quem importa.

No final só restará o espelho

Suspeito que, para obter resultados verdadeiramente satisfatórios, é necessário começar por descobrir a coragem de acrescentar um NÃO e reescrever a história. Para esse efeito, que até pode ser a causa, a fórmula deve ser mais complexa. Não guardei.

Agradeço-lhe, Sr. Raimundo. Como vê o não o esqueci, mas parece ainda ter mais para me contar, terei que voltar a visitá-lo.

Até lá, não me resigno.

 

* Será preferível utilizar um método mais ecológico

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Primeiro dia

por esquisita, em 30.04.21

 

"... hoje é o último dia…" foi a primeira frase que ouvi no rádio, enquanto tentava acordar...

Já perdi a conta ao número de vezes que anunciei a desgraça. Nuns dias com mais calma, com detalhe e recomendações adicionais, noutros poupando nas palavras, resumindo o essencial, ganho coragem e faço a declaração.

Se a pergunta é feita hoje é hoje que tudo começa.

E amanhã pode ser:

"O que é isto tudo, que para aí anda?"

ou, em qualquer outro dia, qualquer outra pergunta, repetida na mesma inquietação sincera da primeira vez, aguardando por resposta. Se a resposta chegar hoje é hoje que tudo começa.

Eu hesito por uns segundos, avalio a força que tenho, peso os estragos que as minhas palavras podem causar e torno a ser o mensageiro da desgraça. 

A surpresa genuinamente repetida:

"O que nos havia de acontecer!"

É hoje o primeiro dia!

"Tudo o que muda amanhã"  leio na primeira página do jornal

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